Eu confesso: já não sei mais distinguir o que é gesto
espontâneo e o que é cálculo. Quando vi o vídeo, ali, escancarado nas redes,
com o prefeito carregando um saco de peixes nas costas, senti um misto de
estranhamento e desconfiança. Não pela cena em si, afinal, o trabalho dignifica,
mas pela encenação quase perfeita, milimetricamente pensada para parecer
natural.
Talvez eu esteja ficando cético demais. Talvez a política
tenha me ensinado a desconfiar até do que parece simples. Mas há algo naquela cena,
naquele esforço exibido, que não me convence. Parece mais um personagem do que
um homem. E é aí que me pego lembrando da literatura, desses tipos ambíguos,
escorregadios, que nunca se revelam por inteiro.
Eu olho e penso: quem é ele de verdade? O homem do povo, que
carrega peso e divide a labuta? Ou o estrategista frio, que entende
perfeitamente o valor simbólico de cada imagem publicada?
Porque fingir, eu sei, não é apenas mentir. Fingir é
construir uma verdade conveniente. É vestir uma pele que agrada, que emociona,
que rende aplausos. E nisso, reconheço, há uma habilidade quase artística. Mas
também há perigo. Porque quando o personagem se torna mais forte que a pessoa,
a realidade passa a ser apenas um palco, e nós, espectadores, viramos cúmplices
involuntários da encenação.
No fim, fico com a sensação incômoda de que não assisti a um
gesto, mas a uma cena. E talvez o maior talento dele seja exatamente esse:
fazer com que a dúvida permaneça.







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