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    COTIDIANO

    Paulo Afonso não é terra de conquista para aventureiros da política

    Ednaldo JúniorPor Ednaldo Júnior29 de outubro de 2026Nenhum comentário
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    Paulo Afonso não precisa de salvadores da pátria. Muito menos de quem chega de repente, assume ares de dono da verdade e se apresenta como se tivesse descoberto a fórmula para resolver todos os problemas do município. A cidade tem história, tem memória e, sobretudo, tem cidadãos capazes de distinguir compromisso público de ambição eleitoral.

    A chegada de Juliano Medeiros ao debate político pauloafonsino, acompanhada de sua disposição de disputar a Prefeitura, merece uma reflexão que vá além do entusiasmo de seus apoiadores ou da propaganda de quem pretende se apresentar como novidade. A pergunta é simples e necessária: o que, afinal, Juliano Medeiros pretende construir em Paulo Afonso: um projeto para a cidade ou um projeto pessoal de poder?

    A dúvida não é gratuita. Quando alguém surge no cenário local com a pretensão de encarnar a solução para problemas complexos, é legítimo cobrar mais do que discursos, frases de efeito e promessas genéricas. É preciso conhecer suas ideias, sua trajetória, suas propostas e, principalmente, a natureza do compromisso que afirma ter com a população. Afinal, administrar uma cidade não é exercício de vaidade, muito menos palco para experiências políticas improvisadas.

    O que causa preocupação é a identificação de Medeiros com o campo da direita bolsonarista, uma corrente política que provocou profundas divisões no Brasil e cujo legado continua sendo objeto de intensos questionamentos. Para quem defende uma sociedade mais justa, solidária e comprometida com a redução das desigualdades, não se trata de uma divergência meramente partidária. Trata-se de discutir que visão de país, de democracia e de sociedade se pretende reproduzir na administração municipal.

    Paulo Afonso tem sua própria história política e uma população que, em diferentes disputas eleitorais, tem demonstrado expressiva presença de forças progressistas. Isso não significa que a cidade pertença a uma ideologia ou que qualquer cidadão de outra corrente política deva ser impedido de disputar eleições. A democracia não tem donos. Mas também não pode ser reduzida a uma oportunidade para que projetos pessoais sejam apresentados como se fossem a vontade coletiva.

    Quem pretende governar Paulo Afonso precisa explicar como suas convicções políticas se transformarão em ações concretas para melhorar a vida dos Pauloafonsinos. Como pretende enfrentar o desemprego? Que propostas tem para a saúde pública, a educação, a infraestrutura e o desenvolvimento econômico? Qual é sua visão para a juventude e para as comunidades que mais precisam da presença do poder público? E, acima de tudo, como pretende governar uma população plural, com necessidades reais que não se resolvem com discursos ideológicos importados de disputas nacionais? Essas são as perguntas que importam. O restante é encenação.

    A política brasileira já produziu exemplos suficientes de lideranças que se apresentam como antídotos para todos os males, prometem rupturas grandiosas e, depois, revelam a distância entre a retórica e a realidade. Paulo Afonso não tem obrigação de se deixar seduzir por mais uma narrativa de redenção. Não precisa trocar problemas conhecidos por promessas embaladas em discursos de ocasião.

    A impressão de oportunismo que essa movimentação pode despertar precisa ser enfrentada com fatos, propostas e transparência. Se existe um compromisso verdadeiro com o município, que ele seja demonstrado. Se há um projeto consistente para a cidade, que seja apresentado à população. O que não se pode exigir dos eleitores é confiança antecipada, muito menos reverência a quem ainda precisa demonstrar o que tem a oferecer.

    E é impossível discutir essa candidatura sem discutir o bolsonarismo. Seus críticos apontam, com razão política e ideológica, os danos provocados pela radicalização do debate público, pela hostilidade às instituições e pelo enfraquecimento da solidariedade como valor coletivo. Seus defensores têm o direito de sustentar outra interpretação. Mas qualquer candidato que se identifique com esse campo precisa assumir a responsabilidade de explicar suas posições, em vez de esperar que o eleitor ignore as implicações de suas escolhas políticas. Parafraseando a mensagem de humanidade que atravessa a obra de Milton Nascimento e Fernando Brant, poderíamos dizer que quem traz na pele essa marca (bolsonarismo) possui a estranha mania de não se importar com ninguém.

    Paulo Afonso precisa avançar, não transformar sua Prefeitura em laboratório de ambições individuais. Precisa de representantes que conheçam sua realidade, respeitem sua população e compreendam que a administração pública exige preparo, responsabilidade e compromisso com o interesse coletivo. A cidade não é trampolim eleitoral, propriedade particular ou território à espera de um suposto salvador.

    A democracia permite que Juliano Medeiros se apresente como candidato. O mesmo regime democrático assegura aos cidadãos o direito de questionar suas intenções, contestar suas ideias e rejeitar suas propostas. Nenhum candidato está acima do escrutínio público, e ninguém se torna a solução para uma cidade apenas porque decide anunciar a própria candidatura.

    Paulo Afonso não precisa de personagens que cheguem prometendo resolver tudo. Precisa de políticas públicas sérias, de participação popular e de lideranças comprometidas com o futuro coletivo. Precisa de menos messianismo e mais responsabilidade; menos espetáculo e mais conteúdo; menos ambição pessoal e mais serviço público.

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    Ednaldo Júnior

    Ednaldo Francisco da Silva Júnior, jornalista, professor e escritor. Entusiasta de literatura, cinema, artes e filosofia.

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