Uma das expoentes da psicodelia nordestina nos anos 1970, a banda pernambucana Ave Sangria foi finalmente anistiada pelo governo brasileiro 52 anos após ter seu disco de estreia censurado pela ditadura militar. Em 1974, o grande “problema” que os militares viram no disco foi a canção Seu Waldir, que eles consideraram ser “apologia ao homossexualismo” (sic).
O Ave Sangria em 1974
Banido das lojas e proibido de tocar nas rádios, o disco do Ave Sangria, atualmente um clássico (e uma raridade), foi retirado de circulação e a banda acabou se dissolvendo. A letra que incomodou tanto a ditadura conta, com muito bom humor, a história de amor entre dois homens e ainda é super atual. Certamente continua incomodando os extremistas de direita de hoje em dia.
Seu Waldir, o senhor
Magoou meu coração
Fazer isso comigo, Seu Waldir
Isso não se faz, não
Eu trago dentro do peito
Um coração apaixonado
Batendo pelo senhor
O senhor tem que dar um jeito
Se não eu vou cometer um suicídio
Nos dentes de um ofídio vou morrer
Eu falo tudo isso
Pois sei que o senhor
Está gamadão em mim
Eu quero ser o seu brinquedo favorito
Seu apito, sua camisa de cetim
Mas o senhor precisa ser mais decidido
E demonstrar que corresponde ao meu amor
Pode crer
Se não eu vou chorar muito, Seu Waldir
Pensando que vou lhe perder
Seu Waldir, meu amor
“A música Seu Waldir foi considerada pela repressão um incentivo à homossexualidade”, disse o conselheiro Manoel Severino Moraes de Almeida ao portal G1. “A ditadura era homofóbica, tratava a questão da moral e dos costumes fazendo com que as manifestações culturais precisassem passar pela censura prévia e foi exatamente aí onde o grupo enfrentou suas maiores dificuldades.”
A canção acabou regravada por Ney Matogrosso em 1981. O Ave Sangria passaria anos esquecido, até que, em 2014, em comemoração aos 40 anos do álbum censurado, se reuniu novamente para alguns shows. Em 2019, o grupo lançou um segundo disco, Vendavais, com 11 músicas inéditas, mas compostas também nos anos 1970. O novo álbum foi premiado pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como um dos melhores discos daquele ano.
O reconhecimento ao Ave Sangria ocorre dentro do regime de anistiado político, criado pela Constituição de 1988 e regulamentado pela Lei 10.559, de 2002. O governo Lula pediu formalmente desculpas em nome do Estado brasileiro aos músicos, que passarão a receber uma pensão mensal e vitalícia de 2 mil reais, além de uma indenização ainda a ser calculada. Foram contemplados o vocalista Marco Polo, o baixista Almir Oliveira e a viúva do baterista Agrício Noya, Kátia Regina Cruz.

