O educador português José Pacheco nunca teve medo de sonhar nem de propor o novo. Aos 75 anos, continua provocando educadores a repensar o que entendem por escola, aprendizagem e convivência. Para ele, transformar e inovar na educação não começa por metodologias da moda, prédios modernos ou tecnologias de ponta. Começa pelas relações humanas.
Escritor de mais de 150 livros e idealizador da Escola da Ponte, instituição pública criada em 1976 no município de Santo Tirso, próximo à cidade do Porto, em Portugal, Pacheco se tornou uma das principais referências quando o assunto é autonomia dos estudantes, aprendizagem em comunidade e reorganização da vida escolar. No projeto “Fazer a Ponte”, coordenado por Pacheco de 1976 a 2004, essa autonomia se expressa em assembleias, tutoria e participação das crianças na organização da vida escolar.
Na roda de conversa “E se aprender fosse, antes de tudo, um ato coletivo?”, realizada no auditório da Camino School, em São Paulo (SP), na noite de terça-feira (12), Pacheco compartilhou histórias que ajudam a compreender a força de sua proposta: a escola deve ser um espaço de vínculos e responsabilidade coletiva, longe do isolamento das salas fechadas.
Ao longo da conversa, Pacheco também falou sobre avaliação, uso de tecnologias, sofrimento infantil e o papel do professor. Em todas as histórias, o mesmo fio condutor: inovar não é criar uma experiência isolada, nem depender do esforço de um único educador.
“Não pode ser um projetinho do professor que dure enquanto ele estiver ali”, afirmou. “Ninguém faz nada sozinho. Projetos humanos são coletivos.”
Um pai que ousou criar uma escola para o filho e para a comunidade
Nos bastidores da criação da Escola da Ponte, havia também a inquietação de um pai. O nascimento de André rompeu a prática docente de Pacheco que, diante da chegada do filho, passou a questionar que formação gostaria de oferecer a ele e à comunidade.
“Fiquei muito preocupado e disse à minha esposa: ou vou encontrar uma escola que possa assegurar para o meu filho e para os filhos dos outros uma educação que os faça mais sábios e mais felizes, ou então vou embora.”
A experiência que viria a se tornar a Escola da Ponte não nasceu como metodologia pronta. Surgiu, segundo o educador, como resposta coletiva a um dilema: se a escola existia para todos, precisava encontrar formas de garantir que todos pudessem aprender.
Essa reflexão levou Pacheco a questionar estruturas tidas como naturais na escola tradicional, como a aula , a turma e a sala de aula. “Eu me perguntava: por que eu dou aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?”
Para ele, a pergunta não era apenas pedagógica. Era ética. Se a escola sabe que nem todos aprendem dentro do modelo tradicional, não pode continuar fazendo tudo do mesmo jeito.
“Dando aula em sala de aula, você consegue ensinar tudo a todos?”, provocou. “Se, em sala de aula, você sabe que não vai ensinar a todos e continua trabalhando do mesmo modo, está ferida a ética.”
Com o pequeno André, nasceu a nova escola.
A criança que apresentou a Rubem Alves a escola com que ele sempre sonhou
Pacheco guarda com carinho a visita de Rubem Alves (1933-2014) à Escola da Ponte, no ano 2000. O impacto foi tamanho que o brasileiro imortalizou a experiência no livro “A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”. Para ele, conhecer a Escola da Ponte foi “um espanto” e “amor à primeira vista”, escreveu em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo.
“Sou um educador. Escrevi muitas coisas sobre a educação no transcorrer da minha vida. Mas, de tudo o que escrevi, acho que minha contribuição mais significativa para a educação foi esse relato espantado e apaixonado”, escreveu o brasileiro.
Rubem chegou à Escola da Ponte esperando ser recebido por um adulto, mas foi uma criança quem o conduziu. Como ainda acontece por lá, coube a Bárbara, então com 6 anos, apresentar a escola ao visitante.
“Quando a Bárbara dá a mão ao Rubem Alves, diz o seguinte: ‘O senhor é professor?’ Ele respondeu: ‘Sou’. Então ela disse: ‘Esqueça tudo o que sabe e venha comigo’.”
A visita, que normalmente durava pouco mais de uma hora, prolongou-se. Pacheco, estranhando a demora, foi observar de longe e encontrou Rubem Alves diante de Bárbara, que preparava um glossário para ajudar os colegas mais novos a compreender termos difíceis da carta de Pero Vaz de Caminha.
“Ela disse: ‘Há meninos aqui que sabem ler menos bem do que eu. Então eu ponho as palavrinhas aqui e, à frente, o que elas querem dizer. Quando meus amigos forem ler, vão entender o texto’.”
Rubem quis saber se uma professora havia pedido aquela atividade. A menina respondeu: “Não. Fui eu que decidi fazer para ajudar meus colegas. Nós aqui somos assim”. Rubem tirou os óculos e limpou as lágrimas. “E, quando um homem chora, fica no primeiro lugar do ranking da humanidade. Aproximei-me dele e, ao fazê-lo, aproximei-me do Brasil. No ano seguinte, eu estava aqui”, recorda Pacheco.
O taxista que lia Paulo Freire
Pacheco também relembrou uma corrida de táxi em São Paulo, entre o aeroporto de Guarulhos e o centro da capital paulista. A viagem duraria mais de uma hora, mas a conversa começou antes mesmo que ele pudesse puxar assunto. O motorista contou que viera do Nordeste jovem, como filho mais velho, para trabalhar e sustentar a família.
Relatou ter aprendido a ler pelas páginas esportivas, movido pelo futebol. Mais tarde, quando se casou, perguntou à esposa o que ela gostaria de ser. Ela desejava ser professora, mas não gostava de ler. O rapaz tomou uma decisão: ela faria o curso e leria os livros, estudaria os autores e lhe explicaria os conteúdos para que ela avançasse.
No caminho, o taxista contou que estudara Jean Piaget, Lev Vygotsky e outros pensadores. Mas foi ao chegar a Paulo Freire, patrono da educação brasileira, que a conversa mudou de tom. “Ele me disse: ‘Estudei tudo o que era estrangeiro, mas o que mais me comoveu foi um brasileiro. Quando estudei Paulo Freire, percebi que essas crianças sofrem. Eu chorei enquanto lia’.”
A cena marcou profundamente o educador português. Para ele, o encontro revelou que o conhecimento pedagógico não pertence apenas às universidades, aos especialistas ou às formações formais, mas também nasce da experiência de vida, da escuta e da capacidade de olhar para o sofrimento do outro.
“Como é que um taxista detém essa sensibilidade, esse conhecimento, que muitos professores não tiveram?”, questionou.

