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    EDUCAÇÃO

    Festival Porvir apresenta caminhos para acolher e proteger quem educa

    Ednaldo JúniorPor Ednaldo Júnior17 de maio de 2026Nenhum comentário
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    Quem ensina também precisa de cuidado, acolhimento, escuta e reconhecimento: foi com esse olhar que o Festival Encontro com o Porvir abriu sua terceira edição neste sábado (16). Em um dia inteiro de imersão com oficinas, palestras e debates sobre a vida escolar, o evento propôs reflexões sobre como tornar a escola mais atenta às relações humanas e às pessoas que fazem a educação acontecer todos os dias.

    Abrindo a programação na Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), em São Paulo (SP), a mesa “Quem garante cuidado e valorização para professores no Brasil?” reuniu Anna Penido, diretora do Centro Lemann em Sobral (CE), Fernando Penna, pesquisador da UFF (Universidade Federal Fluminense) e Paula Beatriz de Souza Cruz, diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima (SP), com mediação de Tatiana Klix, diretora do Porvir.

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    Ao longo da conversa, os participantes discutiram os desafios da profissão docente em um contexto marcado por sobrecarga emocional, violência, precarização das condições de trabalho e perda de reconhecimento social. Mais do que apontar problemas, o debate buscou refletir sobre caminhos possíveis para fortalecer o cuidado com quem educa.

    Gestão de pessoas e clima escolar como pilares para a valorização docente

    Diretora do Centro Lemann de Liderança para Equidade na Educação e especialista em gestão social, Anna Penido destacou que os desafios enfrentados pelos professores hoje extrapolam o campo pedagógico, atravessando questões sociais, emocionais e estruturais.

    Para ela, falar sobre valorização docente exige olhar para as condições concretas de trabalho e para o clima escolar. Anna chamou a atenção para o fato de que, muitas vezes, redes de ensino e gestores ainda dedicam pouco tempo e esforço à gestão de pessoas dentro da educação.

    “Como gerir uma escola para que os profissionais da educação se sintam bem, estimulados e amparados? Como criar esse clima escolar?”, questionou.

    Ela ponderou que fatores como infraestrutura inadequada, excesso de ruído e desconforto térmico afetam diretamente a saúde física e emocional dos docentes. Por isso, políticas de cuidado precisam considerar o acolhimento emocional, o suporte profissional e a melhoria das condições de trabalho.

    Anna também destacou a importância do reconhecimento social dos professores, além da valorização salarial. “Em municípios onde a remuneração é boa, os professores são mais valorizados pela comunidade, viram quase um patrimônio daquela cidade, um orgulho coletivo.”

    Polarização e violência geram isolamento de professores

    Fernando Penna, diretor da Faculdade de Educação da UFF (Universidade Federal Fluminense), líder do grupo de pesquisa NEED (Núcleo de Estudos em Educação Democrática) e coordenador do ONVE (Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es), apresentou dados preocupantes sobre o avanço da violência contra educadores no país.

    “A cada 10 educadores, entre 5 e 6 já foram vítimas diretas da violência. Já entre aqueles que tiveram contato indireto, o número sobe muito: 9 em cada 10.”

    Segundo ele, o crescimento desses episódios está relacionado tanto à polarização política quanto ao enfraquecimento da cultura democrática nos espaços escolares. “Infelizmente, perseguir educadores virou um empreendimento político”, alerta o pesquisador, ressaltando os impactos emocionais dessa violência, que muitas vezes leva profissionais ao adoecimento, ao abandono da carreira ou à mudança forçada de escola.

    “A violência tem uma característica perversa: quando se sofre e não há acolhimento pela instituição ou pelos colegas, ela tem o poder de te isolar.”

    O pesquisador também criticou modelos de ensino excessivamente padronizados e defendeu a valorização da autonomia e da formação continuada dos docentes. Além disso, reforçou a importância de garantir tempo para o planejamento pedagógico como parte essencial do processo de ensino e aprendizagem.

    Respeito e redes de apoio fortalecem o dia a dia

    Educadora negra, ativista LGBTQIAPN+ e a primeira mulher trans a dirigir uma escola pública no Brasil, Paula Beatriz de Souza Cruz trouxe para a conversa a dimensão humana, política e coletiva do cuidado na escola. Com 37 anos de magistério, ela liderou a inclusão do nome social na rede estadual de São Paulo e dirige há mais de duas décadas a Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, zona sul da capital paulista.

    “Meu corpo está presente na unidade escolar em que trabalho”, afirma Paula, ao defender que o respeito aos profissionais da educação deve ser o ponto de partida para qualquer debate sobre valorização docente.

    “Se o objetivo da escola é desenvolver cognitivamente nossas crianças, jovens e adultos, então esse profissional precisa estar bem física e emocionalmente.”

    Ao abordar os impactos cotidianos da rotina escolar sobre os educadores, ela chamou a atenção para aspectos frequentemente invisibilizados. “O sinal do recreio, por exemplo, o quanto impacta na nossa saúde auditiva?”

    Para Paula, transformar a escola também exige revisar práticas e violências naturalizadas no ambiente educacional. Ela ainda ressaltou a importância das redes de apoio e da construção coletiva entre educadores diante dos desafios da profissão. “Aos professores novatos: assim que você pisa na escola, procure fazer uma aliança com outros colegas para seguir.”

    Bem-estar do docente é a base da escola de qualidade

    Apesar das diferentes trajetórias e perspectivas apresentadas na mesa, os participantes convergiram em um ponto central: não existe educação de qualidade sem professores valorizados, protegidos e reconhecidos.

    O debate reforçou que o cuidado com os educadores não pode ser tratado como responsabilidade individual. Ele depende de políticas públicas, investimento, escuta, participação coletiva e fortalecimento do clima escolar.

    Como resumiu Anna Penido: “Tudo começa com o professor, e depois esse processo se espelha nos demais membros da comunidade escolar.”

    Ednaldo Júnior

    Ednaldo Francisco da Silva Júnior, jornalista, professor e escritor. Entusiasta de literatura, cinema, artes e filosofia.

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