Quem ensina também precisa de cuidado, acolhimento, escuta e reconhecimento: foi com esse olhar que o Festival Encontro com o Porvir abriu sua terceira edição neste sábado (16). Em um dia inteiro de imersão com oficinas, palestras e debates sobre a vida escolar, o evento propôs reflexões sobre como tornar a escola mais atenta às relações humanas e às pessoas que fazem a educação acontecer todos os dias.
Abrindo a programação na Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), em São Paulo (SP), a mesa “Quem garante cuidado e valorização para professores no Brasil?” reuniu Anna Penido, diretora do Centro Lemann em Sobral (CE), Fernando Penna, pesquisador da UFF (Universidade Federal Fluminense) e Paula Beatriz de Souza Cruz, diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima (SP), com mediação de Tatiana Klix, diretora do Porvir.
Ao longo da conversa, os participantes discutiram os desafios da profissão docente em um contexto marcado por sobrecarga emocional, violência, precarização das condições de trabalho e perda de reconhecimento social. Mais do que apontar problemas, o debate buscou refletir sobre caminhos possíveis para fortalecer o cuidado com quem educa.
Gestão de pessoas e clima escolar como pilares para a valorização docente
Diretora do Centro Lemann de Liderança para Equidade na Educação e especialista em gestão social, Anna Penido destacou que os desafios enfrentados pelos professores hoje extrapolam o campo pedagógico, atravessando questões sociais, emocionais e estruturais.
Para ela, falar sobre valorização docente exige olhar para as condições concretas de trabalho e para o clima escolar. Anna chamou a atenção para o fato de que, muitas vezes, redes de ensino e gestores ainda dedicam pouco tempo e esforço à gestão de pessoas dentro da educação.
“Como gerir uma escola para que os profissionais da educação se sintam bem, estimulados e amparados? Como criar esse clima escolar?”, questionou.
Ela ponderou que fatores como infraestrutura inadequada, excesso de ruído e desconforto térmico afetam diretamente a saúde física e emocional dos docentes. Por isso, políticas de cuidado precisam considerar o acolhimento emocional, o suporte profissional e a melhoria das condições de trabalho.
Anna também destacou a importância do reconhecimento social dos professores, além da valorização salarial. “Em municípios onde a remuneração é boa, os professores são mais valorizados pela comunidade, viram quase um patrimônio daquela cidade, um orgulho coletivo.”
Polarização e violência geram isolamento de professores
Fernando Penna, diretor da Faculdade de Educação da UFF (Universidade Federal Fluminense), líder do grupo de pesquisa NEED (Núcleo de Estudos em Educação Democrática) e coordenador do ONVE (Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es), apresentou dados preocupantes sobre o avanço da violência contra educadores no país.
“A cada 10 educadores, entre 5 e 6 já foram vítimas diretas da violência. Já entre aqueles que tiveram contato indireto, o número sobe muito: 9 em cada 10.”
Segundo ele, o crescimento desses episódios está relacionado tanto à polarização política quanto ao enfraquecimento da cultura democrática nos espaços escolares. “Infelizmente, perseguir educadores virou um empreendimento político”, alerta o pesquisador, ressaltando os impactos emocionais dessa violência, que muitas vezes leva profissionais ao adoecimento, ao abandono da carreira ou à mudança forçada de escola.
“A violência tem uma característica perversa: quando se sofre e não há acolhimento pela instituição ou pelos colegas, ela tem o poder de te isolar.”
O pesquisador também criticou modelos de ensino excessivamente padronizados e defendeu a valorização da autonomia e da formação continuada dos docentes. Além disso, reforçou a importância de garantir tempo para o planejamento pedagógico como parte essencial do processo de ensino e aprendizagem.
Respeito e redes de apoio fortalecem o dia a dia
Educadora negra, ativista LGBTQIAPN+ e a primeira mulher trans a dirigir uma escola pública no Brasil, Paula Beatriz de Souza Cruz trouxe para a conversa a dimensão humana, política e coletiva do cuidado na escola. Com 37 anos de magistério, ela liderou a inclusão do nome social na rede estadual de São Paulo e dirige há mais de duas décadas a Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, zona sul da capital paulista.
“Meu corpo está presente na unidade escolar em que trabalho”, afirma Paula, ao defender que o respeito aos profissionais da educação deve ser o ponto de partida para qualquer debate sobre valorização docente.
“Se o objetivo da escola é desenvolver cognitivamente nossas crianças, jovens e adultos, então esse profissional precisa estar bem física e emocionalmente.”
Ao abordar os impactos cotidianos da rotina escolar sobre os educadores, ela chamou a atenção para aspectos frequentemente invisibilizados. “O sinal do recreio, por exemplo, o quanto impacta na nossa saúde auditiva?”
Para Paula, transformar a escola também exige revisar práticas e violências naturalizadas no ambiente educacional. Ela ainda ressaltou a importância das redes de apoio e da construção coletiva entre educadores diante dos desafios da profissão. “Aos professores novatos: assim que você pisa na escola, procure fazer uma aliança com outros colegas para seguir.”
Bem-estar do docente é a base da escola de qualidade
Apesar das diferentes trajetórias e perspectivas apresentadas na mesa, os participantes convergiram em um ponto central: não existe educação de qualidade sem professores valorizados, protegidos e reconhecidos.
O debate reforçou que o cuidado com os educadores não pode ser tratado como responsabilidade individual. Ele depende de políticas públicas, investimento, escuta, participação coletiva e fortalecimento do clima escolar.
Como resumiu Anna Penido: “Tudo começa com o professor, e depois esse processo se espelha nos demais membros da comunidade escolar.”

