Desde o fim de 2022, o termo inteligência artificial generativa entrou nas conversas dentro e fora da sala de aula e nunca mais saiu. Com o avanço dessas tecnologias, um dos principais argumentos difundidos, principalmente pelos entusiastas, é a promessa de economia de tempo.
Dados preliminares da pesquisa Pesquisa Futuresource Ed Tech Voice – Estudo com Professores sobre IA, realizada pela FutureSource, empresa internacional de pesquisa de mercado especializada em tecnologia, educação e consumo digital, mostram que 20% dos professores brasileiros afirmaram ganhar mais de 3 horas no dia quando usam IA. Os dados foram apresentados por Melanie Tagg, representante da organização, durante painel na Bett Brasil nesta quarta-feira, 6.
No entanto, esse tempo é rapidamente coberto por outras tarefas do dia. Roberta Freitas, especialista em tecnologias educacionais, avalia que este não é o principal ganho, contudo, de usar inteligência artificial. “Nós educadores já estamos com um déficit de tempo grande. Não adianta dizer que ganhamos tempo, porque o que vamos receber é mais demanda”, ressaltou a educadora, uma das participantes do painel que teve como tema “Integração bem-sucedida da IA na sala de aula: barreiras e boas práticas para impulsionar resultados de aprendizagem”.
IA como apoio criativo
A percepção de Roberta é que, como benefício, a inteligência artificial contribui muito mais com outras áreas ou atividades e não necessariamente com a economia de tempo. “O maior ganho é conseguir fazer coisas melhores, melhores experiências de aprendizagem, poder adaptar conteúdos para diferentes formatos ou necessidades”, argumenta.
Transformar uma apresentação de slides em um material em áudio ou criar um mapa mental a partir de um PDF são alguns dos exemplos mencionados por ela. “É ter a IA sobretudo como apoio criativo”.
Iolanda França, pedagoga e estrategista em inovação pedagógica, avalia que as ferramentas permitem explorar além de novos formatos criativos, outras maneiras de alcançar os estudantes.
“Eu descobri que, quando a gente fala na linguagem do aluno, ele entende melhor. É dizer que com tal conteúdo ele vai ‘farmar aura’”, comentou. A expressão “farmar aura” tem sido muito utilizada recentemente pela geração Z e significa acumular pontos de carisma, estilo, presença ou respeito em jogos online ou nas redes sociais.
Outro aspecto apontado por ela é que, com o uso dessas ferramentas de maneira mais precisa, é possível alcançar a personalização do ensino, “que é linda no papel, mas que nos dá muito trabalho”.
Por que professores ainda evitam IA
A pesquisa apresentada por Melanie durante o evento elencou alguns dos motivos citados pelos docentes para não usar IA. Em uma comparação com dados dos Estados Unidos, o Brasil apresentou médias muito semelhantes nos três quesitos avaliados:
Razões para não usar IA:
- Preocupações com plágio: 44% de professores brasileiros ante 45% de norte-americanos disseram ter receio de usar devido à possibilidade de plágio.
- Comprometimento da qualidade de ensino e da aprendizagem: 36% dos brasileiros e 41% dos norte-americanos não fazem uso de IA por terem medo que a qualidade do ensino caia.
- Falta de capacitação: 36% dos professores brasileiros e 39% dos norte-americanos disseram não usar IA por falta de capacitação.
Melanie destacou outro achado da pesquisa: quanto mais cursos formativos são oferecidos, mais confiantes os professores se sentem para usar IA em suas práticas pedagógicas.
Formação ajuda a reduzir o medo
Muitos educadores ainda têm receio de usar ferramentas de IA. E, segundo as especialistas, isso é totalmente normal, mas também é algo que precisa ser enfrentado. Roberta sugere que a experimentação é sempre benéfica, tanto para conhecer o produto quanto para treinar o olhar, entendendo-o como parte de um processo e não como objetivo final.
“É importante entender o que está diante de nós, quais aspectos éticos, o que é permitido ou não fazer. Depois que estivermos bons nisso, convidamos os estudantes para também reconhecer falhas, limites e possibilidades. A principal questão é traçar um caminho que começa no professor e vai para o aluno e vice-versa”, complementou Iolanda.
Vencido o medo do uso, Roberta também destaca que não é preciso “começar do zero”. “Temos muitos materiais disponíveis que podem ser trazidos para a sala de aula”, comenta.

