Vereadoras trans eleitas no RS defendem que resultados das eleições quebram tabus

 

O Brasil de Fato RS conversou com as três mulheres trans eleitas vereadoras em cidades do Rio Grande do Sul






Historicamente marginalizados, os corpos das pessoas trans no Brasil continuam como alvos da violência no país. Em 2020, o Brasil continua líder mundial em assassinato. Foram registradas, entre outubro de 2019 e setembro deste ano, a morte de 152 pessoas trans.

Na política esses corpos começam a se mexer, cada vez mais, para ter visibilidade e voz. O número de candidatas e candidatos transexuais bateu recorde em todo o Brasil nas eleições 2020. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), foram 271 candidaturas no país, sendo eleitas 30: dois homens trans e 28 travestis e mulheres trans, um aumento de 275% de pessoas trans eleitas em relação a 2016, quando se elegeram oito candidatas.

“Embora tenhamos avanço, temos que reconhecer que continuamos em um país que majoritariamente coloca em risco a vida das pessoas LGBTQI+, principalmente a vida das pessoas trans, que marginalizadas seguem tendo muitas vezes que viver da prostituição e desse contexto”, aponta Lins Robalo (PT), de São Borja, uma das três mulheres trans eleitas como vereadora no Rio Grande do Sul. Seguida dela vem Regininha (PT), que fez 930 votos em Rio Grande, e Yasmin Prestes (MDB), que fez 260 votos em Entre-Ijuís. 

Para as eleitas, o resultado das eleições significa o começo de uma nova sociedade, na qual é possível dialogar e oportunizar vez e voz às pessoas que durante muito tempo não foram ouvidas.  

“Meu interesse pela política não é individual, ele é coletivo”

"Nasci menino, em uma família de seis filhos, de mãe solteira; sou oriunda da periferia, que estudou a vida toda em escola pública, que fez faculdade em universidade pública, especializações em universidade pública e o mestrado em uma privada, mas com bolsa." Assim se descreve Lins Robalo. 

Eleita com 678 votos, Lins conta que começou a se reconhecer no universo LGBT com 19 anos. Com 24 começou a transição. Hoje, aos 37 anos é a primeira representante trans eleita. Para a vereança de 2021, é a única mulher a ser eleita e a única representante dos negros na Câmara de São Borja, região oeste do estado, a “Terra dos Presidentes”, que tem uma população estimada em pouco mais de 60 mil habitantes.


"A gente começa no nosso local, fazendo as transformações necessárias para que a gente possa alavancar e chegar a outros espaços políticos" / Arquivo pessoal

Assistente social por formação, especialista em políticas públicas de violência intrafamiliar e em comunicação não violenta e cultura de paz, ela é uma das fundadoras do movimento Girassol, Amigos na Diversidade, instituição que existe há 13 anos.

“Essa eleição tem um significado muito grande, é a materialidade de um trabalho de 13 anos do movimento muito bem articulado dentro desse município, que vem defendendo pautas relacionadas aos direitos fundamentais, aos direitos sociais, ao acesso à cidade, à cultura, ao lazer. A partir dessa existência, dessas lutas, dessas bandeiras, a gente conseguiu também efetivar uma visibilidade, um reconhecimento de luta a partir do nosso trabalho junto à Girassol e a gente tem esse resultado que é bem positivo”, destaca. 

A candidatura de Lins acontece em uma cidade que é um celeiro político. Considerada a terra dos presidentes, tem como referências políticas as figuras de João Goulart, Getúlio Vargas, Tarso Genro, Ibsen Pinheiro e Luis Carlos Heinze.

“São referências políticas que nós temos no nosso país, mas são referências que ainda nos remetem da política ser um lugar da masculinidade, da heteronormalidade, do branco e do padrão economicamente estável. Essa candidatura (minha) ao ser eleita faz com que a gente perceba que há sim possibilidade de candidaturas outras que representem pautas diversas, pautas que defendem o acesso a políticas públicas com qualidade”, pontua. 

Ela tem sua candidatura sustentada em cinco pilares: mulheres, diversidade, igualdade racial, trabalhadores e periferias. A futura parlamentar destaca que tem como primazia falar sobre gênero, raça, territórios e, dentro dessas falas, fortalecer identidade e a malha sócio cultural em que se está inserida.

“Fazendo com que se transforme no decorrer do tempo todo esse processo de estigmatização, violação e exclusão que as ditas minorias têm sofrido historicamente no nosso país. Então a gente começa no nosso local, fazendo as transformações necessárias para que a gente possa alavancar e chegar a outros espaços políticos com maior referência levando sempre a nossa bandeira e fortalecendo nossa identidade”, afirma. 

Lins diz que sua eleição é resultado de um processo coletivo. “Quando eu falo dessa candidatura, eu falo de pessoas que estão por trás dela e pessoas que acreditam nela, em um contexto de luta, em um contexto urbano de transformações. Estou falando de pessoas negras, que impulsionaram essa candidatura, das pessoas LGBTQI+, de mulheres, da periferia, trabalhadores, que sem eles a gente não teria chegado ao êxito”, conclui.

“Me queriam apenas travesti, mas vocês me fizeram vereadora”

Maria Regina da Conceição Moraes, mais conhecida como Regininha, 41 anos, entrou para uma associação LGBT+ de Rio Grande aos 29 anos, o que a ajudou a descobrir a política. Ela também faz parte da Antra.

::Vereadoras negras e trans estão entre as candidaturas mais votadas em 13 capitais ::

”Cada pessoa, cada indivíduo que cruzou meu caminho fez parte na construção de quem sou hoje, mulher, firme dos meus princípios e plena no que escolhi pra mim. Entretanto, um caminho não é suficiente quando se anda só, e como eu pude traçar esse caminho, com ajuda de muitas e muitos, quero que outras e outros transitem por ele, e ou, construam novos caminhos”, descreve.

Filha de pai pescador e mãe lavadeira, nasceu de uma família de nove irmãs e irmãos, cada um com sua singularidade. “Cresci enfrentando os desafios de pertencer a uma família pobre, vivenciei a fome, a violência por conta da minha identidade durante o período escolar, escola que deveria me acolher na sua pluralidade. Soube, desde minha juventude, que a vida não seria fácil. Mas sempre esteve comigo a vontade de não me acomodar aos pesos que eram largados aos meus ombros”, afirma. 


O resultado que as urnas trouxeram em 2020 dão um norte do que pode acontecer daqui para frente / Arquivo Pessoal

A disputa por espaço na política não é nova para Regininha. Em 2016, candidatou-se pela primeira vez a vereadora, quando fez 488 votos, ficando como suplente e assumindo a cadeira em 2018. Agora, em 2020, foi eleita com 930 votos.

Regininha atualmente está cursando Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg). “Hoje eu sou a primeira mulher trans eleita em Rio Grande, na Câmara mais antiga do estado”, ressalta. Localizada no litoral sul do RS, Rio Grande tem uma população estimada em mais de 211 mil habitantes.

Segundo ela, o resultado que as urnas trouxeram em 2020 dão um norte do que pode acontecer daqui para frente, o que, em sua opinião, é a renovação de fato, a apropriação da política pelos movimentos sociais e por pessoas que foram historicamente excluídas desses processos, que não tinham voz na Câmara de Vereadores.

“Esse mandato é para romper com essas barreiras, com a cisnormatividade dentro desses espaços, ocupados na maioria das vezes por homens brancos heterossexuais de classe média alta. É para empoderar as pessoas, para que elas possam se sentir representadas e se inspirem para as próximas eleições a colocar seus nomes a disposição dos seus respectivos partidos, e de fato concorrerem para que torne aquele espaço mais humano e representativo do povo”, destaca. 

Indagada se as eleições representam uma mudança da sociedade, afirma que a transformação vem a partir de empoderamento e que ela começa nos pequenos passos que estão sendo dados.

“Quando a gente pensa no movimento LGBTQI+, e pensa na sigla o T, a gente sabe que historicamente essa população de travestis e transexuais vivem e viveram à margem por muito tempo. Às vezes não enxergavam uma luz no fim do túnel para sair desse processo da prostituição, que eu digo que é uma prostituição por coerção por parte da nossa sociedade, que nos retira desses espaços, principalmente em educação, e não nos oportuniza nos qualificarmos e concorrer de igual para igual”, comenta.

Para ela o significado que a eleição traz é o começo do processo de mudança, de uma nova sociedade, apesar do número significativo das abstenções. “Começamos um processo de renovação social no país. As pessoas estão deixando um recado a partir dos pleitos eleitorais. As pessoas estão desacreditadas na democracia. Quando a gente, nós, a nossa população e as pessoas que antes não participavam desse processo continuam acreditando, elas trazem uma nova visão, e fazem com que essas pessoas que não acreditam mais nessa democracia, na política e nos políticos, passem a se enxergar dentro desses processos. É a possibilidade de um novo recomeço”, finaliza.

"Estamos quebrando tabus, barreiras”

Yasmim Prestes vem também de uma família humilde. Filha do agricultor Antonio Silva Prestes e da dona do lar Edely Loreli Mendonça, tem 24 dos seus 38 anos dedicas ao trabalho voluntário, focada no acolhimento de famílias e crianças. “Tenho 15 anos de pastoral, 10 anos como colaboradora, cinco anos de líder da pastoral, cinco anos como líder comunitária do bairro Ribas, seis anos como voluntária e colaboradora voluntária na causa animal. Sou fundadora do projeto Solidários Em Ação e Brechó Solidário”, destaca. 

Ela comenta que nunca pensou em entrar para a política e que sua candidatura se deu por conta do trabalho voluntário que desempenha. “Eu sempre ia atender as famílias nos bairros e alguns colaboradores e apoiadores do projeto falavam 'porque tu não coloca teu nome à disposição para tu ter mais força, mais voz, até para o teu trabalho', e eu sempre achando que não deveria participar. Mas eu recebi o convite do MDB e fiquei motivada a entrar”, comenta. 


"Estamos aí para representar e fortalecer a nossa classe LGBT" / Arquivo Pessoal

Natural do município Entre-Ijuís, região das Missões, cidade com uma população estimada em 8.411 habitantes, Yasmim foi eleita com 260 votos, sendo a primeira candidata vereadora transexual.

“Estamos aí para representar e fortalecer a nossa classe LGBT, que a gente sabe que em outros municípios grandes passam por vários preconceitos e discriminações, até Santo Ângelo, que conhecemos casos que acontecem dia a dia”, pontua, destacando que nunca passou por preconceito em sua cidade.  

Yasmim afirma que que irá continuar gerindo o projeto solidário, trabalhando junto e para a comunidade, buscando recursos juntamente com o município e estado.

Ao comentar sobre a importância e o significado, ela diz que tem uma grande representatividade no fortalecimento da classe LGBT+. “Estamos quebrando tabus, barreiras e cada vez mais nossa classe está colocando a cara para encarar a realidade. Espero, para as outras eleições, que outros municípios possam ter colegas que coloquem seu nome a disposição porque em todas as cidades sempre têm uma guerreira que luta por suas causas”, conclui.

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