Barroso junto com Dalagnol, Moro, políticos e empresários acreditou que daria a linha no governo e o presidente seria apenas mais um fantoche com uma faixa pendurada no peito




Anderson Pires*

O Ministro do Supremo Roberto Barroso está sentindo o veneno que ajudou a formular. Ele que já foi tratado como o mais apaixonado dos lavajatistas, agora faz cara de espanto pelo monstro que gestou junto com Dalagnol, Moro, Fachin e tantos outros. Alguém tem dúvidas que o ativismo jurídico foi o principal responsável pela eleição de Bolsonaro?

Como não me comovo com as palavras ensaboadas de Barroso, prestar solidariedade incondicional no embate que trava com o presidente por conta do voto impresso está acima dos meus limites de generosidade.

Barroso e Bolsonaro se merecem. São integrantes da mesma cepa que vem devastando o Brasil desde 2013, quando o ativismo jurídico, aliado à militância de grupos empresariais e de comunicação, geraram instabilidade no país com intuito de vencerem as eleições em 2014. Como não obtiveram sucesso, forjaram um impeachment, criminalizaram a política, inviabilizaram a candidatura do Lula e criaram as condições para que um fascista chegasse à presidência.

Em meio a verborragia de figuras como Barroso, o elitismo e a moral que conduziu os processos da Lava Jato sempre estiveram presentes. O respeito a democracia que prega em face dos absurdos que Bolsonaro propaga foi deixado de lado quando o intuito era tirar da política quem lhe parecia inapropriado. A Constituição e os direitos individuais foram esquecidos. O que importava eram as convicções.

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No caso de Barroso é ainda mais grave, porque sua trajetória como advogado foi marcada por alguns casos midiáticos que serviram para alimentar vaidade e fama. Alguém que defendeu o italiano Cesare Battisti, ex-militante da organização Proletários Armados para o Comunismo, rapidamente esqueceu dos preceitos que levantou com relação a criminalização da política, garantia de refúgio e que baseado em deleção premiada, eivada de vícios e incoerências, seu cliente foi condenado na Itália.

O Barroso que como advogado defendeu a pesquisa em células-tronco, a união homoafetiva e manifestou sua posição pelo fim da criminalização da maconha, após assumir como Ministro do Supremo, explicitou que as causas que advogou não foram suficientes para acabar com seu ranço de classe. O preconceito tem sido condutor das suas posições jurídicas, quando o tema perpassa a política e a disputa pelo poder. Seria mais apropriado afirmar que Roberto Barroso atua no Supremo como integrante do partido que fomentou a Lava Jato e pariu o bolsonarismo.

Sendo assim, em momento algum, o embate com Bolsonaro pode ser pautado pelo viés da solidariedade ao Presidente do TSE. Não será por uma questão específica relativa ao processo eleitoral que os pecados jurídicos que cometeu serão esquecidos.

Barroso experimenta do veneno que imaginou ser imune. Como tantos outros, subestimou a capacidade de Bolsonaro para destruir o que restava da democracia brasileira. Junto com Dalagnol, Moro, políticos e empresários acreditou que daria a linha no governo e o presidente seria apenas mais um fantoche com uma faixa pendurada no peito. Cego pela soberba, imaginava ter o personagem perfeito para exterminar a esquerda e tomar o poder de volta. Brincou com a democracia.

Pois é, o Barroso que hoje torce o nariz pelos ataques que sofre do Presidente da República deveria aproveitar para rever a sua participação nessa tragédia que ajudou a escrever. Mesmo diante da total discordância com Bolsonaro, não posso perder a oportunidade de externar minha satisfação em constatar que o Ministro merece cada um dos adjetivos e ataques que lhes são dirigidos. Na verdade, acho é pouco.

*Anderson Pires é formado em comunicação social – jornalismo pela UFPB, publicitário, cozinheiro e autor do Termômetro da Política.