Quem é professor certamente já passou por uma situação semelhante: uma aula que começa difícil, com um tema complexo e a turma dispersa. Há conversas paralelas, estudantes distantes e outros que respondem sem muita vontade. Mesmo tentando seguir o planejamento, a sensação é de que nada vai mudar.
Até que alguma coisa acontece.
Não há bronca nem cobrança por silêncio. O conteúdo continua o mesmo, mas a sala se transforma no instante em que alguém, professor ou estudante, faz uma pergunta que dá sentido ao que é apresentado. Por vezes, basta um comentário contextualizado e curioso para quem está longe voltar para a roda e quem está calado querer falar. De repente, a turma começa a escutar e a aula ganha outro ritmo.
A rotina escolar revela que a aprendizagem ganha fôlego no instante em que a relação com o conteúdo passa a fazer sentido. E esse significado não nasce apenas do planejamento, mas do encontro entre professor e estudantes, sustentado pela escuta e pela presença.
Essa foi a imagem escolhida por Simone André, consultora em educação, para aproximar o tema do cotidiano docente durante a roda de conversa “Cuidar para educar: empatia, escuta e inteligência emocional na escola”, realizada nesta quinta-feira, 7, durante a Bett Brasil. A mesa, mediada por Beatriz Castro, repórter da Globo em Pernambuco, contou também com Carolina Nalon, mediadora de conflitos e especialista em CNV (Comunicação Não-Violenta) pelo Instituto Tiê.
Para Simone, a resposta ao desinteresse surge quando o educador consegue deslocar algo profundo a partir do cuidado, o que não significa apenas acolhimento individual, mas o reconhecimento dos sujeitos.
“A leveza indica que os estudantes fazem parte do processo, que a vontade de contribuir está presente, que os colegas têm vontade de ouvir o que eles têm a dizer. O educador gera engajamento a partir de quem os estudantes são. Cor, raça, gênero e território estão dentro da sala. Isso é a base do engajamento”, explicou.
Engajamento sem imposição
Para a consultora, o cuidado na escola define as condições que viabilizam a aprendizagem. Ela partiu de um ideal construído a partir da própria experiência com educação.
“Eu gosto de pessoas juntas, questionando e aprendendo. Isso não sai de dentro de mim. A aprendizagem é o mais importante em sala de aula. E como ela acontece? O que é mais importante? Provavelmente existem muitas respostas. A minha é o engajamento. Não existe aprendizagem sem engajamento”, declarou.
A frase toca em uma ferida pedagógica: ninguém aprende de verdade apenas porque alguém mandou aprender. O engajamento depende de uma abertura que não pode ser forçada.
“Engajamento não pode ser imposto. É como uma porta que só abre para dentro. A aprendizagem depende dessa porta, de nós decidirmos abrir. Então, a pergunta é: o que faz o estudante ter vontade de aprender?”, questionou Simone.
Empatia e escuta
Em uma sociedade que fragmenta a atenção, estar em sala de aula não garante disponibilidade para aprender. Para Simone, o cuidado ajuda a reconstruir essa abertura porque cria sentido.
“Hoje, o contemporâneo disputa a atenção e o engajamento o tempo todo, tanto nosso quanto dos estudantes. Nem sempre é para a gente aprender ou se mover em nosso projeto de vida. Na maior parte do tempo, é para nos distrair”, observou.
Carolina também partiu da atenção para falar de empatia. Para ela, antes de qualquer resposta ou intervenção, é preciso reparar no outro.
“O mundo contemporâneo vive a economia da atenção. As maiores empresas disputam a nossa atenção. Onde a colocamos é precioso”, pontuou.
Ao recordar uma cena cotidiana com a filha de uma amiga, Carolina ilustrou como a conexão se estabelece no detalhe. A menina não respondia aos chamados da mãe para o café porque estava envolvida na tarefa de abrir um pacotinho de ração de peixe. Foi o gesto de perceber a concentração da criança que mudou a relação.
“Empatia é conseguir ter esse tempo de reparar no outro”, disse Carolina. “Não existe empatia ou conexão sem que, antes, eu dedique minha atenção.”
O cuidado como aprendizagem
Ao longo da conversa, Simone defendeu que o cuidado não é um complemento, mas parte da engrenagem do aprender. Para ela, o cognitivo e o socioemocional são indissociáveis.
A consultora classificou o cuidado como uma espécie de “infraestrutura invisível da aprendizagem”. Não se trata, segundo ela, de uma habilidade menor ou acessória. Em tradução livre, soft skills são habilidades socioemocionais, como escuta, empatia, colaboração e comunicação. Já hard skills são competências consideradas mais técnicas ou estruturantes. Ao aproximar o cuidado das hard skills, a especialista defende que escuta, empatia e vínculo não podem ocupar um lugar periférico na educação, porque são condições para que a aprendizagem aconteça.
Essa sustentação depende diretamente dos adultos da escola. Simone destacou que professores e gestores são os principais responsáveis por garantir as condições emocionais, relacionais e pedagógicas necessárias, mas fez uma ressalva: essa responsabilidade não pode virar mais uma cobrança individual aos educadores.
“Pedimos que professores construam sentido, engajem, criem vínculo, sustentem ambientes emocionalmente estáveis, mas, na maioria das vezes, eles não são formados para isso, nem apoiados no cotidiano da profissão”, alertou.
Por isso, para ela, o cuidado precisa ser uma escolha institucional, ligada à gestão, à formação e às condições de trabalho. “Não existe cultura de cuidado com os estudantes sem cultura de cuidado com os educadores”, reforçou. “Isso é uma agenda concreta de gestão e formação.”
Valor docente
Carolina também chamou atenção para o mal-estar docente e para a necessidade de recuperar o prestígio da profissão. Segundo ela, a escola vive atravessada pela pressa, pela pressão por resultados e pela sensação de urgência permanente.
A especialista relacionou essa dificuldade de escuta ao ritmo acelerado da vida contemporânea, citando a reflexão do professor Luís Mauro Sá Martino, autor do livro “Sem tempo para nada: como tudo ficou acelerado, por que estamos tão cansados e as alternativas realistas para mudar”, no podcast “Rádio Escafandro”. No episódio, ele abordava o “tempo da mercadoria”.
“Não vivemos mais no tempo de saúde para nossas relações. Vivemos no tempo da mercadoria”, comentou Carolina. “O mundo não vai desacelerar. Pelo contrário.” Nesse caldeirão, a escola corre o risco de virar mercado, quando deveria ser o espaço para salvar o humano.
Presença pedagógica
Sobre o fortalecimento dos vínculos, Carolina retomou um princípio da CNV: em vez de focar no comportamento, deve-se compreender a necessidade por trás dele.
“Quando a gente não consegue se conectar, estamos só olhando para o comportamento das pessoas: esse professor é chato, esse aluno é isso. Isso é rótulo. A maneira de construir vínculo é olhar para a necessidade”, definiu.
A especialista citou Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não-Violenta, para lembrar que toda agressão é a expressão trágica de uma necessidade não atendida. Na escola, isso não significa aceitar tudo, mas reconhecer que há algo a ser compreendido antes da resposta.
“Ter vontade de se conectar é trazer essa necessidade do aluno para o jogo”, explicou Carolina. “Você pode reconhecer que a necessidade é legítima, mesmo sabendo que não é a hora de atendê-la.”
Para Simone, essa conexão se manifesta na “pedagogia da presença”, um conceito de Antonio Carlos Gomes da Costa (box ao final do texto). São gestos simples: um bom dia, o olhar no olho, saber o nome das pessoas. “Essa presença gera acolhimento, mas também gera exigência: convoca o outro a aprender e a ser melhor”, explicou.
Empatia e humanidade
Carolina também falou sobre a diferença entre sentir e demonstrar empatia. Para ela, embora a sensibilização faça parte da experiência humana, expressar essa escuta de forma cuidadosa exige aprendizagem.
“Às vezes, estamos ouvindo alguém, sentimos empatia, mas respondemos: ‘No meu tempo era pior’. Ou então: ‘É sempre assim’. Ficamos fazendo obstáculos em vez de oferecer escuta.”
Simone acrescentou que cuidado, escuta e empatia foram historicamente associados a atributos femininos e, por isso, desvalorizados. Resgatá-los como parte central da educação, segundo ela, também é uma forma de enfrentar essa hierarquia.
“Quando reconhecemos e valorizamos que esse atributo é o cerne da educação, a gente se empodera. Não é só de mulher, é papel social da educação”, analisou.
No encerramento, Simone reforçou que uma escola mais cuidadosa não é uma escola sem objetivos, critérios ou avaliação. “Meta ajuda a gente a aprender. É a meta empática, generosa e humanizada que ajuda a gente a aprender”, declarou. “O que não é legal é traduzir tudo em punição e recompensa.”
Cuidar para educar, na leitura das especialistas, não significa substituir o currículo pelo acolhimento, nem transformar professores em terapeutas. É reconhecer que ninguém aprende fora de uma relação e que, antes de qualquer tecnologia, metodologia ou indicador, a escola continua sendo feita por pessoas. Como resumiu Simone: “Esse pequenininho está na raiz invisível da escuta e da empatia. É o óbvio que a gente esqueceu que nos faz humanos.”

