A decisão da Prefeitura de Paulo Afonso de investir cerca de R$ 5 milhões na construção de uma estátua de São Francisco de Assis revela mais do que uma aposta no turismo religioso. Politicamente, a iniciativa deixa claro uma gestão que ainda busca uma identidade administrativa e um projeto consistente para o município.
O governo municipal projeta que o monumento poderá movimentar entre R$ 23 milhões e R$ 36,5 milhões por ano, impulsionado pelo turismo religioso. A estimativa, contudo, encontra forte resistência entre setores da sociedade que questionam os fundamentos da projeção. Paulo Afonso nunca se consolidou como um destino de peregrinação ou de grandes manifestações religiosas capazes de sustentar, por si só, uma cadeia econômica voltada para esse segmento.
A história da cidade sempre esteve associada ao potencial turístico de seus cânions, à Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) e às belezas naturais do Rio São Francisco, e não à tradição de grandes romarias. Transformar esse cenário exige mais do que um monumento: demanda planejamento de longo prazo, investimentos em infraestrutura, promoção do destino, calendário permanente de eventos e integração com o setor privado.
Dessa forma, a obra passa a ser vista como uma tentativa de encontrar uma nova narrativa para a administração. Sem apresentar um plano estratégico amplamente conhecido pela população, a gestão transmite a percepção de atuar por iniciativas isoladas, sem que elas estejam inseridas em um projeto de desenvolvimento claramente definido.
O contraste entre o investimento na estátua e as dificuldades enfrentadas pela população em áreas essenciais reforça as críticas. Enquanto moradores continuam relatando problemas no acesso à saúde, como longas filas e espera por atendimento nas unidades básicas, a aplicação de milhões de reais em um equipamento turístico desperta questionamentos sobre a ordem de prioridades da administração.
Na política, símbolos têm importância. Mas eles dificilmente produzem resultados quando desacompanhados de políticas públicas estruturantes. Um monumento pode se transformar em cartão-postal, porém não substitui investimentos em saúde, educação, infraestrutura, mobilidade e geração de emprego, áreas que influenciam diretamente a qualidade de vida da população.
A obra tende a representar o símbolo de uma gestão desconectada das demandas mais urgentes da cidade. Já para o governo, trata-se de um investimento voltado ao desenvolvimento econômico futuro. O desafio da administração será demonstrar que a expectativa de retorno financeiro não ficará restrita às projeções e que o empreendimento será capaz de gerar, na prática, os benefícios anunciados.
Até lá, a estátua de São Francisco deixa de ser apenas um monumento e se transforma no principal teste político da gestão Mário Galinho. Se o projeto alcançar os resultados prometidos, poderá ser lembrado como uma decisão visionária. Caso contrário, corre o risco de se tornar o maior símbolo de uma administração criticada por apostar em obras de forte apelo midiático enquanto parcela da população cobra respostas para problemas considerados mais imediatos.

