A atuação política do prefeito de Paulo Afonso, Mário Galinho, nas eleições deste ano expõe uma estratégia que, mais do que flexível, pode ser interpretada como oportunista. Ao tentar manter-se simultaneamente próximo de grupos políticos adversários, o prefeito parece transformar a conveniência eleitoral em princípio e a sobrevivência política em prioridade.
Galinho apoia Adolfo Viana, ligado ao grupo de ACM Neto, enquanto também declara apoio a Daniel Alencar e João Carlos Bacelar, nomes associados ao campo político do governador Jerônimo Rodrigues. Como se não bastasse, sua movimentação ainda alcança o grupo ligado a Flávio Bolsonaro. É uma verdadeira política de portas abertas: nenhuma aliança parece definitiva e nenhum lado parece suficientemente distante quando existe algum ganho político a preservar.
A situação lembra a personagem Diana, do tradicional Auto de Natal, que se apresenta dividida entre os dois cordões, vestindo as cores de lados diferentes. A diferença é que, no caso da personagem, a divisão faz parte da tradição. Na política, entretanto, quando a divisão é usada para acomodar interesses, ela pode revelar algo bem menos folclórico: o oportunismo de quem não quer assumir o risco de escolher um lado.
O problema não está simplesmente em dialogar com diferentes grupos. Um político responsável pode conversar com adversários, construir pontes e até fazer alianças pontuais. O que causa estranheza é defender, ao mesmo tempo, projetos políticos que frequentemente se encontram em campos opostos e fazê-lo sem apresentar ao eleitor uma justificativa coerente para tamanha elasticidade.
A impressão deixada é a de que Galinho quer colher os frutos de todos os lados sem assumir os custos de nenhum deles. Se um grupo vencer, ele estará próximo. Se outro prevalecer, também haverá uma porta aberta. É a lógica do “com quem ganhar, eu estarei”.
E é justamente aí que a questão deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser política e moral. Fidelidade é um atributo importante para quem pretende exercer liderança. Quem muda de posição conforme a conveniência transmite ao eleitor a sensação de que seus compromissos podem ter prazo de validade especialmente quando surge uma oportunidade mais vantajosa.

A política, evidentemente, admite alianças e mudanças de rota. Mas existe uma diferença entre amadurecer uma posição e simplesmente adaptar-se às circunstâncias. A primeira demonstra convicção; a segunda pode revelar cálculo.
No caso de Mário Galinho, seus críticos têm motivos para perguntar: se ele é capaz de distribuir sua fidelidade política entre tantos grupos diferentes, em qual deles está, de fato, o seu compromisso?

