Em Paulo Afonso, moradores do entorno do Balneário dizem que precisam da “permissão” da Guarda Municipal para entrar e sair de casa durante os festejos. E o adesivo de morador? Parece valer menos que a boa vontade de quem está na barreira.
Paulo Afonso ganhou uma nova figura política. Não consta oficialmente em nenhum decreto municipal, mas já pode ser encontrada no imaginário de quem vive no entorno do Balneário: Galígula.
Não, não estamos falando do imperador romano. É apenas a alcunha irônica que a política local parece ter produzido para o prefeito Mário Galinho, diante das queixas de moradores que afirmam estar vivendo uma espécie de versão moderna do Império Romano durante a Copa Vela.
A diferença é que, em vez de legiões romanas, há barreiras. No lugar das muralhas de Roma, pontos de controle. E, para alguns moradores, até para chegar à própria casa parece necessário apresentar um salvo-conduto.
O cidadão ganhou um adesivo. A liberdade, aparentemente, ficou na prefeitura. A administração municipal criou um adesivo para identificar quem mora na região. A ideia, em tese, seria facilitar a circulação. Na prática, segundo os moradores, o adesivo não garante exatamente aquilo que deveria garantir: o direito de ir e vir sem precisar negociar com quem está controlando a passagem.
Moradores relatam que, mesmo identificados, dependem da avaliação e da boa vontade dos agentes para conseguir acessar suas próprias residências. É uma situação curiosa. O sujeito compra ou aluga uma casa, paga impostos, contas, contribui com a cidade e, durante a Copa Vela, descobre que para entrar em casa precisa quase pedir autorização ao “Império de Galígula”.
Falta só alguém entregar uma senha: “Morador autorizado a retornar ao seu próprio domicílio.”
Uma festa democrática com jeito de território ocupado. É claro que ninguém é contra festa. Aliás, Paulo Afonso merece cultura, música, turismo e grandes eventos. A Copa Vela faz parte da identidade da cidade e movimenta a economia, mas existe uma diferença monumental entre promover uma festa e transformar o entorno dela em uma zona de exceção.
Quando o morador precisa explicar por que está tentando chegar à própria residência, alguma coisa saiu do lugar. Quando um evento público começa a fazer o cidadão se sentir estrangeiro dentro do próprio bairro, a administração precisa parar, respirar e perguntar: Quem está sendo servido pela festa?
Como se as restrições de circulação não fossem suficientes, os moradores também reclamam do volume do som das atrações. E aqui a história ganha um componente quase surreal.
Nas proximidades do evento está uma UPA, unidade destinada justamente a atender pessoas doentes, feridas, idosas e em situação de vulnerabilidade. De um lado, pacientes procurando atendimento; do outro, caixas de som despejando decibéis.
A cidade festeja, o paciente espera e o morador tenta dormir. Tudo isso em nome da festa. A pergunta não é se Paulo Afonso deve ter música. Deve. A pergunta é se, para fazer uma festa grandiosa, é necessário fazer do ouvido dos outros o sistema de som do evento.
Galígula pode até gostar de festa. Mas cidadão não é súdito
Calígula entrou para a história como símbolo de um poder marcado pelo autoritarismo e pelo desprezo aos limites. “Galígula”, no caso de Paulo Afonso, é apenas uma provocação política. Mas é uma provocação que nasce de uma pergunta bastante concreta: Até onde pode ir o poder público em nome de uma festa?
Porque prefeito não é imperador, Guarda Municipal não é guarda pretoriana, adesivo de morador não é salvo-conduto e cidadão não é súdito.
A Copa Vela pode ser grandiosa sem transformar os moradores em figurantes involuntários de um espetáculo que acontece literalmente na porta de suas casas. No fim das contas, talvez esteja faltando uma coisa bastante simples ao “Império de Galígula”: lembrar que Paulo Afonso pertence aos seus cidadãos e não o contrário.
Porque festa acaba, os moradores ficam. E, quando os últimos acordes forem embora, serão eles que continuarão vivendo ali, tentando entrar em casa sem pedir licença e tentando dormir sem precisar disputar com o som das bandas.

