Paulo Afonso já viveu dias em que a chegada da Copa Velas era praticamente uma contagem regressiva coletiva. Bastava o evento se aproximar para a cidade mudar de fisionomia. O comércio se preparava, os grupos de amigos combinavam a folia e o assunto dominava as rodas de conversa. Agora, a impressão é outra.
A algumas horas do início da festa, o entusiasmo parece ter ficado preso em algum gabinete da administração municipal. Nas ruas, não se enxerga a mesma expectativa de outros tempos. Falta aquele burburinho, aquela ansiedade, aquela sensação de que a cidade inteira está esperando a festa começar.
E talvez exista uma explicação bastante simples para isso: má gestão administrativa. Mais do que medir o tamanho da festa, a Copa Velas deste ano traz à tona uma discussão que ultrapassa o evento: o sentimento da população sobre as condições econômicas da cidade, a qualidade dos serviços públicos e os rumos da administração municipal. O povo está revoltado e liso.
A evasão de renda oriunda da má administração fez com que o dinheiro sumisse, deixando o povo completamente sem dinheiro, sem ânimo e o comércio congelado. A economia do município estagnou.
A gestão resolveu transformar o ano inteiro em um interminável calendário de festas. Teve festa, teve show, teve evento, teve comemoração, teve mais festa e, quando parecia que finalmente haveria uma pausa, aparecia outra programação. O problema é que o cidadão não recebe salário em ritmo de calendário festivo. O bolso tem limite, e aí chega a Copa Velas, justamente um dos eventos que deveriam ser tratados como o grande momento do ano, e o público pode estar simplesmente sem dinheiro para acompanhar a farra.
É o famoso tiro que saiu pela culatra: tanta vontade de mostrar uma cidade em permanente clima de festa que a administração terminou por matar justamente a expectativa pela festa que realmente importa. Porque existe uma diferença entre movimentar a cidade e saturar a cidade. Existe diferença entre promover cultura e transformar evento em vitrine permanente, e existe, sobretudo, uma diferença entre governar para a população e administrar pensando na fotografia, no palco, no vídeo para as redes sociais e na propaganda institucional.
A sensação que se espalha é de que a gestão apostou alto demais na fórmula “mais festa, mais exposição, mais popularidade”. Só esqueceram de combinar com o principal patrocinador involuntário dessa estratégia: o bolso do cidadão.
O resultado pode ser perversamente irônico; a cidade tem festa demais e animação de menos. Dinheiro público pode até bancar palco, estrutura e atrações. Mas não consegue colocar dinheiro no bolso de quem já gastou o que tinha nas festas anteriores. E também não consegue fabricar espontaneamente a empolgação de uma população que pode estar simplesmente cansada.
A Copa Velas começa hoje. Mas, antes mesmo do primeiro acorde, ela já oferece uma imagem simbólica para quem acompanha os movimentos da política local: uma administração que parece ter confundido quantidade de eventos com qualidade de gestão. Festa é boa. Ninguém discute. O que se discute é quando a festa vira estratégia de governo.
Porque enquanto o calendário pode estar cheio, há outra agenda que não pode esperar: saúde, infraestrutura, serviços públicos, geração de emprego, manutenção da cidade e tantas outras demandas que não têm palco, iluminação cênica nem atração nacional. E talvez seja exatamente isso que esteja faltando neste momento, menos pirotecnia administrativa e mais resultado concreto.
A Copa Velas ainda pode surpreender. Pode ser que a cidade acorde, que o público apareça e que a festa seja um sucesso. Mas, independentemente do tamanho da multidão, fica uma pergunta que certamente continuará circulando depois que o último som desaparecer: será que Paulo Afonso está cansada de festas, ou cansada de uma gestão que parece acreditar que governar é manter o povo permanentemente em clima de festa?
Porque, no fim das contas, não existe banda que toque alto o suficiente para abafar o barulho de um bolso vazio.

