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sábado, 24 de maio de 2014

As pessoas que fizeram “piada” com uma tragédia no Nordeste

Comentaristas do G1 fazem piada com um acidente de ônibus que deixou 18 mortos no Ceará. Quem vai responder pelos comentários criminosos?


A Justiça Federal do Ceará acatou um pedido do MP para quebrar o sigilo de seis internautas que conseguiram fazer piada com um acidente de ônibus no Ceará, no dia 18, que deixou, até o momento, 18 mortos. O estado em que estavam os corpos dificultou a identificação.
A determinação foi rápida. O Ministério Público coletou dezenas de comentários — dezenas — que podem ser enquadrados como crime de racismo, que prevê de dois a cinco anos de prisão.
(É preciso lembrar que não há ninguém preso por racismo no Brasil, o que não tira o mérito da decisão, evidentemente).
Comentaristas de grandes portais costumam se dividir, basicamente, em três grupos: os intolerantes; os burros; e os que culpam o PT por todos os problemas do universo, da fase gorda de Elvis Presley à falta de água em Marte. Em comum, o ódio.
O G1, entre outros, deu a notícia. Não por acaso, foi ali que a maioria dos comentários surgiu. Coisas do tipo:
“A notícia boa é que esse povo não virá poluir meu RS.”
“Não sabia que existia ônibus no Ceará kkk.”
“Com todo o respeito… 20 eleitores do PT a menos.”
“Nada de valor foi perdido.”
“Será que o acidente poderia ter sido evitado se as pessoas (cearenses) tivessem sentados um de cada lado? Vai ver o peso da cabeça chata fez o ônibus tombar… eu tinha 2Kg de mandioca para dar a esse povo… o que eu faço agora?”
Ao repercutir a decisão da Justiça, o G1, cinicamente, desabilitou a caixa de comentários.
Há um consenso entre psicólogos de que qualquer pessoa pode virar um monstro na internet. Inclusive seu vizinho gente fina que leva os filhos para a escola às 6 da manhã.
O anonimato torna tudo possível. Só psicóticos dizem num bar que estão contentes com a morte de crianças. No mundo virtual, a sensação de estar sozinho e protegido faz com que a doença aflore.

Platão conta a história do anel de Giges, que deixava seu dono, um pastor, invisível. Uma parábola da impunidade. Com ele, Giges rouba, mata o rei e sobe ao trono. Quem não faria isso, sabendo que era invisível e não seria pego, pergunta Platão.
Tirar a invisibilidade de quem tripudiou sobre o massacre de nordestinos num acidente rodoviário é um avanço.


Kiko Nogueira, DCM

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