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domingo, 28 de novembro de 2010

TROPA DA MÍDIA


Por Renato Rovai *
O texto que segue do Fernando Barros e Silva, articulista da Folha de S.Paulo, é bastante significativo do que se está assistindo na TV e vivendo-se no Rio de Janeiro.
As TVs, principalmente a Globo e a Globo News, e a imprensa carioca, decidiram que essa nova crise deve ser tratada como a grande cartada final contra os problemas de segurança no Rio de Janeiro. E a transformaram num circo de horrores.
Os repórteres da vênus platinada estão usando coletes à prova de bala com a logomarca da editora. A intenção é tornar os acontecimentos um palco de guerra e fazer a polícia colaborar ao máximo para que a ação se transforme num acontecimento espetacular.
Como diz o Fernando Barros e Silva no artigo abaixo, tudo está sendo aceito em nome desse espetáculo e não é questionado. Tanto faz se todos os 44 mortos são marginais ou se há entre eles pobres-diabos.



Há um triunfalismo exorbitante na cobertura jornalística dos acontecimentos gravíssimos no Rio de Janeiro. Na sua primeira página de ontem, o jornal “O Globo” estampou, em letras garrafais: “O Dia D da guerra ao tráfico”.
A comparação, ou “semelhança simbólica”, entre a ocupação da Vila Cruzeiro, anteontem, e o desembarque das tropas aliadas na Normandia, impondo a derrota aos nazistas, é um despropósito, um disparate histórico, além de factual.
Vale lembrar: no dia 21 de abril de 2008, o Bope pendurou na parte mais alta da mesma Vila Cruzeiro a sua bandeira preta com a caveira no centro. A tropa de elite da polícia comemorava uma semana de ocupação na favela. Falava-se então na apreensão de “três mil sacolés de cocaína e 480 pedras de crack”. Já vimos, pois, esse filme antes.
O que aconteceu desde então? As coisas agora são diferentes? Parece que sim. A começar pelo emprego de armamentos de guerra e de efetivos das Forças Armadas no cerco ao tráfico. Os bandidos também mudaram de patamar: passaram a patrocinar ações típicas da guerrilha e do terrorismo pela cidade.
Até prova em contrário, esses parecem ser sintomas do agravamento de um problema, e não da sua solução. Curiosamente, o secretário de Segurança do Rio mostra ter mais noção disso do que a mídia.
Por toda parte — TVs, jornais, internet –, há uma tendência compulsiva para transformar a realidade em enredo de “Tropa de Elite 3″, o filme do acerto de contas final. A dramatização meio oficialista e meio ficcional do conflito parece se beneficiar de uma fúria coletiva e sem ressalvas dirigida aos morros, como quem diz: sobe, invade, explode, arregaça, extermina!
É quase possível ouvir no ar o lamento pela ausência de traficantes metralhados diante das câmeras. Até o momento em que escrevo, foram incendiados 99 veículos e mortas 44 pessoas. Quantas eram marginais? Quantas eram só pobres-diabos? E que diferença isso faz?


Fernando Barros e Silva

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